Ósculo

Movimentos meio sincronizados. A boca entreaberta, que parecia expelir palavras balbuciadas como aquelas que se diz quando se está alcoolizado. Era madrugada de um dia qualquer. Hora exata não se sabe. O lábio inferior sendo degustado enquanto arrepios iam tomando-lhe o corpo. As mãos e os braços prendiam, seguravam, sustentavam. Ao redor, outras pessoas quaisquer, vivendo momentos quaisquer, sentindo algo qualquer.
   
Os olhos, selados por cílios longos, temiam abrir-se. Temiam constatar que não era aquela boca, aquele sorriso, que era apenas o nada, oposto a aquele, que era tudo. A língua perdida, desajustada, desabrigada, fugia da outra. Uma respiração cautelosa desafluía a possível entrega, e os segundos passavam trazendo à memória outros segundos de duração prazerosamente milenar.
   
O suor escorria entre os corpos extremamente apertados, ora pendiam para trás, ora erguiam-se. O corpo dele encurvava o dela, tendo na cintura, ambos, o eixo de uma imagem côncava. Mãos que puxavam o cabelo, outras que só se seguravam nos braços fortes. Braços que nem eram bem-vindos, abraço insípido, diferente daquele, de outrora.
   
Alguma música tocava, vozes de gargalhadas, pessoas que buscavam por outras quaisquer, por serem também quaisquer. Vitrine de consumo, consumo rápido. Sentimento nenhum, beijos descartáveis, derramando salivas de outrem, recém- repousadas na língua. Era em suma, o cenário daqueles movimentos meio sincronizados, com a boca entreaberta, lábio inferior sendo, vez por outra, sugado. A mão estranha, o hálito desconhecido, o sentimento ausente e, na alma, o vazio.


Andréia Rocha