Casulo de Caio
No ano de 2006, o escritor Caio Fernando Abreu completou 10 anos de falecimento e suas obras ainda sim, são de pura permanência, como no livro Pedras de Calcutá, que foi escrito em 1977 durante o regime militar.
Por Luana Cavalcanti*
No ano de 2006, o escritor Caio Fernando Abreu completou 10 anos de falecimento e suas obras ainda sim, são de pura permanência, como no livro Pedras de Calcutá, que foi escrito em 1977 durante o regime militar. É uma literatura feita para um leitor extremamente sensível e inócuo, um leitor que vai se espantar e ao mesmo tempo se identificar ao perceber assim como Caio , que “o mundo não vale a nossa lucidez”.
No conto Recurdos de Ypacaray , o autor consegue descrever de maneira leve, essa coisa intensa e oscilante que é o “crescer”. A criança, que se torna adolescente de um jeito quase que forçado pela natureza, por diversas vezes, se pega em pensamentos miúdos num corpo já crescido ou com pensamentos maduros em corpo tão miúdo. Caio escreve sobre fuga e a certeza de que já se sabe “quase” tudo, fazendo com que percebamos no conto, que crescer é uma ruptura, assim como as lagartas que vivem num casulo e depois de muito tempo e sacrifício saem de lá bonitas e coloridas em vôos sem destino.
O autor possui uma linguagem coberta de representações daquilo que está posto aos olhos de uns e aos sentimentos confinados de outros.
O livro é de uma narrativa fluente e invasiva, que sai da ação da leitura para uma reflexão de linguagem, palavras, contexto, levando o leitor para um passeio ao caos interno e externo que somente Caio Fernando Abreu sabe suscitar através da escrita; como no conto Uma História de Borboletas, onde Caio praticamente dá asas e cores aos pensamentos de personagens tão singelos e sensíveis, nos levando a acreditar que a loucura pode ser sim um ápice da felicidade, como disse Desidério Erasmo no livro Elogio da Loucura : “Digam de mim o que quiserem (pois não ignoro como a Loucura é difamada todos os dias, mesmo pelos que são os mais loucos), sou eu, no entanto, somente eu, por minhas influências divinas, que espalho a alegria sobre os deuses e sobre os homens”. E Caio descreve essa mesma loucura citada por Erasmo , da maneira mais linda possível:
“(...) Foi então que senti qualquer coisa como uma comichão entre os cabelos. Aproximei-me do espelho, procurei. Era uma borboleta. Das azuis, verifiquei com alegria. Segurei-a entre o polegar e o indicador e soltei-a pela janela (...) subi na janela e alcancei as telhas para aconselhá-la:
- É assim mesmo – eu disse. – O mundo fora de minha cabeça tem janelas, telhados, nuvens, e aqueles bichos brancos lá embaixo. Sobre eles, não te detenhas demasiado, pois correrás o risco de transpassá-los com o olhar ou ver neles o que eles próprios não vêem...”
O livro Pedras de Calcutá é de uma tristeza densa que chega a ser bonita, uma felicidade refinada e uma loucura, um caos, um borbulho quase que desejável; uma escrita que perturba o juízo e o peito, fazendo com que o leitor se perca na personalidade ou na história de alguns personagens e tenha a sensação absurda de que o livro é como se deparar como um espelho, refletindo a sua própria imagem.
Serviço:
Pedras de Calcutá
Autor: Caio Fernando de Abreu
Editora: Companhia das Letras
Preço médio: R$ 29,90