
OJá não é mais o mesmo aquele menino, quando virou homem, ficou tão bonito, corpo másculo e ar respeitador; usava jeans e blusas básicas, tinha um jeitinho largado e arrumado ao mesmo tempo. Foi quando me apaixonei por ele, era de uma delicadeza que rasgava sorrisos, dedicado e atencioso, ficamos juntos por quase quatro anos.
Nos amávamos em ápices. Andávamos como se fossemos um e dormíamos como se fossemos um. Ficávamos felizes com os passeios mais simples, como os de molhar o pé na beirinha do mar numa tarde qualquer; comer doce de goiaba debruçados na janela da minha casa, contemplávamos o crepúsculo e ríamos feito bobos dos transeuntes apressados no cotidiano atordoado; colecionávamos sorrisos diferentes e clichês na ponta da língua.
Agora, o homem que se tornara já não é mais o mesmo, ainda é homem por fora escondendo um menino por dentro. Mas já não é mais o meu menino homem.
Vivendo de uma felicidade camuflada numa barba bem feita e inúmeras taças de vinho, em noites atropeladas e dias esquecidos num tempo que parece não acabar nunca; dá preferência por estar arrodeado de multidão aglomerada, que são muitos e não são nada.
Carregando um par de olheiras naqueles olhos agora cansados, tão bonito era aquele par de olhos, hoje já não consigo distinguir que cores são aquelas íris distantes. Um corpo elétrico e passos que caminham nas superficialidades de uma vida desgraçada.
Eu já não o amo mais! Porque já não é mais o meu menino homem; já não somos mais somente um e desde que ele tornou-se vários em um, cada um desses vários é um ser que repugno; porque assim como antes, ainda prefiro a alegria descansada.
É um homem menino, que pega o de dentro dele e o de dentro alheio e brinca feito criança, dá formas como quer, igual massa de modelar, tão feias, porque já não tem mais delicadeza naquelas mãos que antes me acarinhavam com a leveza do amor na ponta dos dedos.
Desaprendeu as tenuidades da vida, do que é belo e prazeroso, não sabe nada sobre dor. Certo dia quando lhe falei das minhas, ele balançava a cabeça com um ar tristonho afirmando entender, mas os olhos, aqueles olhos perdidos gritavam que só mais à diante é que será passível de compreensão das coisas de cá, das coisas soltas, dos medos, dos buracos da vida e de como pode ser perigoso não saber dar formas no de dentro, dele e alheio.
Há de se cansar!
E a vida que ele molda, há de provar que assim como as massas de modelar, se estragam.
Eu já não amo mais aquele homem menino, porque já não é mais o meu menino homem. É todo o meu desencanto. Mas ainda que me reste carinho, vou fixar no fundo, no fundo quase infinito daquele olhar tão perdido e lhe ensinarei que dentro não é massa de modelar. E que fora há outras tantas felicidades que não em taças de vinho.
E talvez, um dia, voltaremos a nos encontrar...
E debruçados novamente na janela da minha casa, combinaremos outros passeios simples e discretos como fazíamos quando éramos somente um.
Agora dois. Um... dois.
E eu vou olhar para ele e nele vou conseguir enxergar, de novo, aquele menino homem, e desta vez ele saberá, que felicidade a gente cativa da vida e quando a gente menos espera, ela nos presenteia com outras tantas.
Às vezes, de segundo em segundo.