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Setembro de 2010
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Impressões
 

O Impressões é um espaço virtual reservado para contistas, cronistas e escritores em geral que nos emprestam sensações inebriadas, pequenos intervalos mágicos no cotidiano. Se você transforma o mundo em letras, se imprime, impressiona, improvisa, impregna sentimentos, envie seu texto para imprensa@dragaodomar.org.br

Orgasmo Aéreo

Aos mais atiradinhos já vou logo adiantando que esta crônica não trata de nenhuma orgia aérea a vinte mil pés de altura, ou melhor, a cinco mil, o máximo que eu chegava (no manual falava em dez mil) nos modestos Paulistinhas do Aeroclube de Bragança Paulista. Tampouco vou falar da fantasia sexual de muita gente que é transar com uma aeromoça durante um vôo. Não é a minha, não necessariamente durante o vôo. Se bem que não seria tão difícil (agora já não me refiro à aeromoça) fazer algumas analogias entre o ato de voar e o ato sexual. Se não vejamos: ambos, na maioria das vezes, nos levam às alturas, ou melhor, nos deixam nas nuvens. É verdade que algumas vezes pode-se ficar a ver navios, mas não mudemos o meio de transporte agora.

Outra relação é o fato de que muitos homens se referem às mulheres mais belas e digamos, mais apetecíveis, como avião. Muitos até exageram e ainda insistem naquela velha e ineficaz cantada do “vem pousar no meu aeroporto” ou “vem conhecer meu porta-aviões”. Nunca soube de ninguém que tenha obtido algum sucesso com isso. E tem mais, para quem não sabe, a palavra take off , decolar em inglês, também é usada por eles para dizer que... bom, quando se referem à ereção de um modo geral.

Analogias à parte, a minha intenção é apenas deixar registrado uma das minhas melhores sensações experimentadas na minha não tão longa, porém muito bem vivida existência até o momento: a de voar. Nem preciso dizer, mas eu digo assim mesmo, que eu não concordo com aqueles que dizem que, “se Deus quisesse que a gente voasse teria nos dado asas”. Se assim fosse não existiria o submarino, pois se Deus quisesse que andássemos debaixo d'água nos daria guelras.

Eu não poderia dizer que voar tenha sido sempre o meu sonho de infância. Não seria justo porque na minha infância eu queria ser tudo, de cientista maluco a dono de uma fábrica de chocolate. De piloto de fórmula 1 a piloto da Força Aérea, isto sem contar os novos sonhos que apareciam a cada dia, de acordo com o filme da moda e com o passar dos anos. Na minha adolescência, por exemplo, eu queria ser desde jogador de futebol a campeão de Kickboxe ou Karate, ou Kung Fu, etc. Com os hormônios à flor da pele e o aumento do interesse pelas garotas, cheguei a considerar a possibilidade de ser um ator de novelas, um astro de rock, massagista de vôlei feminino e até mesmo um ginecologista, por que não?

Antes de voar de verdade, pois havia a opção dos simuladores, tive que ralar muito, foram seis meses de curso teórico e uma prova de quatro horas de duração, numa sala sem ar condicionado e vigiado por soldados da Aeronáutica. Só fui aprovado na segunda tentativa, mas fui. A partir deste ponto começava a parte boa, mas também a mais cara: as aulas práticas.

Enquanto ainda não a tinham roubado, de São Paulo a Bragança eu normalmente viajava na Angélica, minha linda motocicleta, que ganhou esse apelido porque era loira, ou melhor, amarela, bonita e tinha uma manchinha preta num dos lados. Sim, roubaram a Angélica, da garagem da minha casa, num dos dias em que eu resolvi ir de carro (se ainda tivesse ido de táxi), mas isso é assunto “pra outras cervejas”.

Pois é, embora não tivesse habilitação, tinha uma moto dessas de fazer trilha, mas a única “trilha” que eu fazia mesmo era quando tinha que sair da estrada alguns metros antes de um posto da Polícia Rodoviária que ficava entre São Paulo e Atibaia, um pouco antes de Bragança, cidade onde eu tinhas minhas aulas de pilotagem. Alguns minutos depois eu voltava para a Fernão Dias e em poucos minutos já estava lá, na minha querida e pacata Bragança Paulista.

Chegar ao Bruxa não era nem metade da aventura. A propósito, Bruxa era o nome do Aeroclube da cidade, nunca me esqueci da logomarca deles, era uma bruxinha pilotando uma vassoura. Hoje eu acho brega e esteticamente pobre, mas a idéia era legal. Na verdade tudo (exceto a minha moto) era “legal”. No balcão da escola, que também era a “torre” de controle, agendava um horário, escolhia um avião e um instrutor e pouco tempo depois da inspeção, onde verificava cuidadosamente todos os itens do Check List, já estava voando. Perna-do-vento, base, final, través, altímetro, pitô, ailerons, stol e estabilizadores faziam parte do vocabulário – era tudo uma maravilha, mas ainda não estava sozinho. Embora depois das primeiras aulas eu já estivesse fazendo tudo, o avião tinha duplo comando, assim como os carros de auto-escola, e qualquer barbeiragem o instrutor corrigia.

Finalmente chegou o dia do vôo solo. Cheguei bem cedo na pista, por volta das sete da manhã (juro que é verdade!), de fato, só consegui porque havia dormido no alojamento do aeroclube. Acordar e ir direto para um hangar é algo divino, acreditem. Ainda com um pacote de biscoitos de chocolate numa mão e um todinho na outra, fui até o avião e comecei a checar meu aviãozinho. Desta vez com o dobro de cuidado, afinal, em poucos minutos estaria sozinho lá em cima.

Taxiando em direção ao centro da pista, mais uma verificação de pressão do motor e pneus – as preliminares são muito importantes aqui também - coração a mil, motor também, ganhava velocidade, ficava leve... mais leve... e de repente já não sentia mais o chão (lembram do que eu falei no começo?), em pouco tempo já estava nas nuvens. Não sem antes sentir aquele friozinho na barriga, típico da primeira vez. Pensando bem, eu diria que o tal do orgasmo aéreo é um orgasmo múltiplo, no mínimo duplo: um na decolagem e um no pouso – depois você dá aquela relaxada. Pelo menos até você descer do avião com as pernas bambas e ter que sair correndo do banho de óleo, porque alguém abriu o bico e espalhou que era a sua primeira vez – era o batismo! Será que é por isso que dizem que a segunda vez é sempre melhor que a primeira?

Mário Ribeiro

 



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