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Fevereiro de 2010
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Entrevista
 

Pixo/Poesia – arte silenciosa, que salta aos olhos da urbe

À frente do projeto Sprays Poéticos, Rica P e Claudio Donnato estiveram em Fortaleza para ministrar oficina de graffiti. Grafiteiros, artistas visuais, poetas e pessoas ligadas a projetos de inclusão social através da arte, aprenderam técnicas e imprimiram suas obras nos muros de Fortaleza. O Dragão do Mar aproveitou a ocasião e conversou com os professores

Fotos: Giovanni Santos

No stencil graffiti a imagem é inscrita a partir de um molde vasado.

Em Fortaleza para ministrar a oficina Sprays Poéticos, Rica P e Claudio Donnato analisaram questões relacionadas a arte do graffiti (optamos por usar a grafia italiana “graffiti” no lugar do português “grafite”, por ser a forma mais comumente escrita entre artistas e estudiosos). Rica tem 33 anos, é poeta, compositor e guitarrista, e apaixonou-se pelo graffiti confabulando o projeto Sprays Poéticos, em 2005. O projeto transmite as técnicas de elaboração e corte do stencil, um método em que a impressão da imagem é feita a partir de um molde vasado. O stencil é considerado prática favorita entre os artistas, tanto pela rapidez, como pela qualidade de imagem que a técnica oferece, e ainda pela possibilidade de repetição da imagem. Com a mesma obra espalhadas pelas ruas, mais conhecido fica seu autor.

Além de disseminar a técnica, o projeto Sprays Poéticos resgata o graffiti poema dos anos 80 e atua no reconhecimento do graffiti paulistano, gênero que influenciou artistas do mundo inteiro graças à sua diversidade de estilos, originalidade e excelência pictórica. Também à frente do projeto, Claudio Donnato grafita desde 1989 dedicando-se ao método stencil. Atualmente fotografa pessoas comuns e transforma-as em graffiti. O trabalho, intitulado "Identidade Urbana", retrata nos muros o perfil dos personagens com o nome da pessoa grafitada, sinalizando a necessidade de diálogo entre o urbano com o humano.

E foi nas ruas de Fortaleza que a oficina Sprays Poéticos foi finalizada. Promovida pelo Núcleo de Literatura do Dragão do Mar, os alunos - g rafiteiros, artistas visuais, poetas e pessoas ligadas a projetos de inclusão social através da arte percorreram a cidade e expuseram nos muros as técnicas aprendidas. Unindo o stencil, até então inédito na cidade, com a arte da poesia, imprimiram suas produções em p ontos devidamente autorizados pela Secretária Regional II da Prefeitura Municipal. Confira abaixo uma entrevista com os professores da oficina.

Dragão do Mar - Como se deu o envolvimento de vocês com o grafite?

Rica P- Sempre gostei de graffiti, sempre admirei, mas nunca havia tido contato direto com os artistas. O Sprays Poéticos foi para mim, entre outras coisas, uma maneira de conhecer este universo.

Claudio Donatto - C omecei a grafitar em 1988, com Maurício Villaça, um dos precurssores do graffiti no Brasil. Comecei, pois entendi logo cedo que o espaço restrito dos suportes convencionais não eram o bastante pra eu dizer o que eu queria comunicar

Dragão - Vimos que o projeto Sprays Poéticos atua reconhecendo o grafitti paulistano como arte visual, não é? Podem nos falar da função poética desta linguagem nas ruas?

Rica - Bom, qualquer graffiti é uma arte visual, não só o paulistano. Agora, quanto à função poética do graffiti, ela estava desaparecida desde a metade dos anos 80, quando a geração de artistas de 'graffiti poético' de São Paulo deu lugar a novos artistas ligados puramente à questão visual. Com poucas exceções, o graffiti paulistano deixou de ter o elemento poético nessa época. O projeto Sprays Poéticos quer resgatar o espírito daquele momento, ao mesmo tempo renovando-o.

Claudio - A própria intervenção do artista de rua na cidade é por si só poética. O "sprays poéticos" resgata a palavra como meio de imprimir a relação do homem com a cidade, humanizando os espaços urbanos tão carentes de humanidade.

Dragão - E quais os outros objetivos do projeto?

Rica - No plano pessoal, abrir novos caminhos para a divulgação da minha poesia, além da oportunidade de conhecer os artistas do graffiti que tanto admiro. O projeto também pretende resgatar o graffiti-poema dos anos 80 e fazer sua fusão com o Stencil; lembrar que a poesia também pode ter espírito pop, urbano e contestador; enriquecer ainda mais a variada cena de graffiti de São Paulo.

Por trazer tantos objetivos, é importante a presença do fotógrafo Beto Riginik, que atua como 'filtro' visual, percebendo todas essas facetas e ainda acrescentando sua visão sobre os trabalhos.

Claudio - O objetivo, claro, é estreitar a relação entre a poesia e o espaço urbano, resgatando dessa forma a poesia dos anos 70, 80, da arte de rua.


Grafiteiros, artistas visuais e poetas percorreram ruas de fortaleza e delinearam seus talentos.

Dragão - Quando viajam pelo Brasil, o que é percebido, por exemplo, no Nordeste? Há alguma linha de atuação em conjunto, algum estilo semelhante entre grafiteiros nordestinos?

Rica - Não posso falar do Nordeste em geral, mas, a respeito de Fortaleza, notamos uma diferença muito grande no estilo das pichações (ou como dizem os artistas, o 'pixo'), quando comparadas às de São Paulo. Lá os pixos usam tipologia mais agressiva, as letras são feitas de ângulos retos. Em Fortaleza, têm um formato diferente, com traços sinuosos.

Claudio - É a segunda vez que viajo com o graffiti ao Nordeste. A primeira vez fui para a Bahia, onde o graffiti era praticamente desconhecido, e agora no Ceará, onde a cena da arte de rua ainda está começando, ou seja, não dá ainda pra falar de diferenças de estilos.

Dragão - No grafite ainda existe o protesto, o engajamento surgido na década de 70? Quais são as diferentes básicas dos grupos antigos para os contemporâneos? Ainda vigoram o protesto contra o caos urbano, contestações políticas..?

Rica - O protesto existe. Talvez não na forma de frases de alvo direto, como 'abaixo a ditadura', mas a própria atuação do grafiteiro será sempre contestadora, principalmente da ética do uso do espaço público: porque é permitido ocupar o espaço visual público com propaganda e não é permitido ocupá-lo com arte? Pra mim, é a grande questão levantada pelo graffiti.

Claudio - Não. O que acontece, de um modo geral, tanto da old school, quanto da new school é uma busca estética, uma pesquisa no sentido de imprimir um acento pessoal ao seu diálogo com a cidade. A  manifestação política se dá na atitude de utilizar o espaço urbano, que hoje é uma espécie de quintal expandido da casa do artista. 

Dragão - Os grafiteiros seguem movimentos de atuação ao estilo da Pintura, que pode ser abstracionista, impressionista, cubista? Existem classificações no Grafite?

Rica - Não. Muitos grafiteiros com quem conversei me deram a seguinte resposta, que considero muito inteligente: graffiti não é uma questão de estética, e sim de atitude, de atuação. Uma tela feita por um grafiteiro exibida num museu não é graffiti, está no campo das artes plásticas 'tradicionais'. Graffiti é a rua, com o que isso implica: contestação do uso do espaço público, vontade de democratizar o acesso à arte, desafio ao poder.

Claudio - Não, não existem essas classificações. Claro que, se você quiser estudar o graffiti a fundo, você vai achar algumas influências desse ou daquele movimento. Hoje existem dois tipos de graffiti, o free hand, que é a técnica à mão livre e o stencil.

Dragão - Quais passos ainda têm de ser dados para tornar o grafite uma arte respeitada como poética-visual ?

Rica - Acho que esta pergunta cabe melhor a um artista do graffiti. Para um observador apaixonado como eu, esse respeito está conquistado há muito tempo. Não sei se o mesmo vale para a maioria da população.

Claudio - O graffiti já é respeitado como tal, haja visto os espaços conquistados até agora.

Alyne Cardoso

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