Jantar a dois

O dinheiro era pouco, mas mesmo assim comprei roupa nova, sandália nova e brincos novos…

Passei no supermercado e mesmo sem saber cozinhar direito comprei temperos, condimentos, frutas, salmão, arroz, salsinha e tomate seco.

Mesmo sem saber qual o melhor vinho, escolhi um branco, suave, de sabor adocicado, comprei também dois jarros de flores, desses que vendem em supermercado, um com flores de várias cores e o outro com flores de uma só cor: brancas, as minhas prediletas.

De volta para casa encontrei aquelas senhoras que vendem rosas dentro dos ônibus, comprei cinco.

Cheguei em casa cozinhei o arroz, fritei o peixe, pus o vinho para gelar, escolhi o repertório musical, escolhi as velas com fragrâncias que eu gosto; banhei-me, arrumei-me, pus perfume, maquiagem, arrumei os cabelos como ele gostava, meu vestido verde com um discreto decote modelava meu corpo e combinava com a sandália de salto agulha, pulseiras combinavam com os brincos e o batom com a cor do esmalte.

Pus-me a arrumar a mesa, enfeitei o arroz com tomate seco e salsinha, pus uvas verdes e morangos dentro das taças, enfeitei o peixe com ervas e legumes, acendi as velas, despetalei as rosas e joguei-as no chão, do portão de entrada, em cada degrau da escada, na sala, na toalha da mesa do jantar, pus o jarro de flores brancas sobre a mesa e fiquei a esperar…

O relógio da sala, adiantado alguns minutos, calado me alertava que o tempo passava… passou meia hora, uma hora, a comida esfriou, vinho ficou quente… quatro horas depois já cochilando no sofá da sala me dei conta que fiz um jantar para dois… pus à mesa dois pratos, dois talheres, duas taças… as velas já tinham acabado mais o aroma continuava a invadir os cômodos da casa… ele não veio, mas de fato ele não viria, ele não foi convidado… na verdade esse jantar era o que eu sempre quis fazer para nós dois… não deu tempo… ele se foi…

Cleide Madeiro
16/12/2008