Untitled Document
Especial de Carnaval
Setembro de 2010
Crônica

Capítulos retirados do romance ainda inédito O Amor não deixa bilhete

XXXIX

No carnaval, fomos, todas as noites, para o apartamento de nosso amigo Tavares, onde tudo começou, no centro da cidade onde havia o desfile das escolas de samba. Cada noite ele ia com uma fantasia diferente. Na última noite foi de “Barbie Paraguaia”. Um curtíssimo vestido de plástico, ele próprio confeccionara, cor de rosa. Sua bunda e seus seios ficavam praticamente desnudos.

Veio a chuva na avenida. Rasguei-lhe a fantasia e completamente molhados, nos embalamos ladeira abaixo. Naquela noite, nem imaginávamos que tudo era muito velho e extraordinariamente vulgar, feito à canção que nos empurrava precipício abaixo.

LXXXIV

Mais um carnaval chegou e novamente passamos no apartamento do Tavares, no centro. Uma das noites fomos, eu, meu travesti, Tavares e mais um amigo, que no carnaval se travestia, para um bairro afastado do centro. Um bairro da periferia. Tavares vendia confecção para muitos garotos do bairro. Muitos deles pagavam as roupas com favores sexuais.
Nessa noite, Tavares encontrou vários de seus amigos. Todos estavam bêbados e dançavam sem cessar ao som de uma banda de forró contratada pela prefeitura para animar o bairro. Meu travesti e nosso amigo travestido subiram numa mesa e começaram a dançar e a levarem dedadas. A cada dedada que meu travesti levava, olhava para mim, que estava num canto contemplando a algazarra. Olhava-me como se eu censurasse aqueles dedos que entravam vigorosos em sua bunda.

Era carnaval...

LXXXVI

Naquela noite de carnaval, na periferia da cidade, paramos um táxi para retornarmos ao centro. Pouco antes de entrarmos no carro, testemunhamos um assalto, dois jovens se embolaram no chão. O táxi partiu.

No trajeto, notamos que o táxi estava sendo seguido por um carro da polícia. O taxista não parou. Empreendeu-se uma perseguição. O táxi entrou velozmente em várias ruas, tentando desviar do carro da polícia. Ficamos em pavorosa.

A perseguição continuou até o taxista pegar uma avenida e o carro da polícia emparelhar com o táxi, um dos policias apontou uma arma para o taxista. Descemos do carro e continuamos o trajeto, até o centro, a pé. No caminho, muitas risadas e uma boa história para contar.

CXXXII

O carnaval se aproximava. Tudo dera certo. O dinheiro estava completo. A data da aplicação marcada. Cassandra ansiava sair na avenida com a nova bunda de fora.

CXXXVI

Planejamos, mais uma vez, passarmos o carnaval no corso do centro da cidade. No sábado, pela manhã, telefono para Cassandra, quem atende é Ivete, sua irmã. Cassandra se movimentava com dificuldade, sua bunda estava muito vermelha, sentia dor e ardia em febre.

CXXXVIII

Não iria perder o carnaval por conta de um travesti que estava com a bunda doendo. Me mandei para uma cidade praiana, famosa por seu carnaval. Cheguei lá sábado à noite e fui logo caindo na farra. Dias de muita dança e bebedeira, no fim das contas, tive até que vender a rede de dormi que havia levado para puder pagar a passagem de volta.

Cheguei na capital, na tarde da quarta-feira de cinzas e fui direto vê Cassandra. Sua bunda estava completamente preta, não podia andar. Estava prostrada na cama. Pelo o que me falou, havia ido à farmácia, onde o farmacêutico era um velho muito competente. Ele passara, e até fiara, antiflamatórios e antibióticos de dosagens altas.

Na segunda, a irmã, havia levado-o para uma emergência pública. O médico de plantão receitou, também, mais um punhado de medicamentos e avisou que se o quadro persistisse, voltasse na quinta-feira.

CXCIII

No carnaval que nos conhecemos, fizemos amor (que perseguição!) desenfreadamente. Lembro que em menos de vinte e quatro horas, entrei em Cassandra Campos, dezoito vezes. Todas com preservativo, mas teve uma delas, quando lhe rasguei a fantasia de "Barbie Paraguaia", que quis penetrá-la por sobre o lençol. Cassandra disse não, introduzi, somente a ponta, Cassandra sempre dizendo não. O lençol deslizou para fora, meu desejo foi aplacado. Fizemos um trato, faríamos nossos exames e seriamos felizes para sempre.

Cláudio Portella é escritor cearense e tem 34 anos. Autor de “BINGO!” (Poesia, 2004), alguns de seus textos foram publicados nas revistas Caros Amigos, Coyote, Suplemento Literário de Minas Gerais, Dimensão, e na revista portuguesa Palavra em Mutação, entre outras. Seus trabalhos proliferam em publicações eletrônicas tais como “Capitu”, “Germina”, “Paralelos” e “Patife”. Portella tem textos traduzidos para o inglês, para o espanhol e italiano.
Contato: clautella@ig.com.br

Leia mais:

Luana Cavalcanti: Uma saudade chamada Arlequim.

Júlio Lira: Frevo.

Cláudio Portella
 
 
 

 


Fale conosco

Rua Dragão do Mar, 81 - Praia de Iracema - Fortaleza - Ceará - Brasil