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Especial de Carnaval
Setembro de 2010
Crônica

Frevo


Ilustração: Natália Forte

Pulei, ah, dancei. Vim do Recife pra ver Pitombeira /no mesmo compasso, poeira, carreira/ menina do passo, queimada de sol. Nem sei a hora que me perdi do bloco de amigos, se quando cheirei e caí durinho para trás, o céu tinindo, se quando me levantei e saí pulando, me misturando com o pessoal que passava, corpo já quente. O ritmo meio afro: atuado, vai ver que foi isso, fiquei atuado, foi isso, não era responsável, por mim, por nada, e ela, parece que ainda vejo, dançava no balcão, de vez em quando jogava água para gozo da galera e eu ali, cachorrinho sedento esperando. É talco, é banho, é carreira /no Carmo, na Sé, na Ribeira / Olhando teus olhos me perco e esqueço até do jantar. Acho que riu pra mim, a cabeça não ajuda, mas lembro das pernas pela canga, se alongando, se alongando, prometendo todas as águas e o cheirinho da loló e o cheirinho da loló e as pernas, mesmo depois do joelho, se alongavam, mais e mais. Eu dançava, ou balançava, não sei, a música sacudia o tronco, e todos passavam, avalanche, e eu na cova da leoa, contra a parede. Foi ali, naquele instante, talvez, a porta se abriu e eu lá, no meio de colchões e sacos de dormir, a sala, uma caixa de ressonância. Pandeiro na mão, estrela do norte, areia do mar / Olinda mandou me chamar. Não sei, procurei por ela, talvez ela por mim, acho que disse o nome, nos beijamos, ela riu e continuou dançando, beijava e se afastava, ficou longe, cada vez mais distante. Eu fui me aproximando, lembro, era um frevo meio misturado, esquisito, ela tão longe, tão linda, de canga jogando água na multidão, uma sacerdotisa, e ela ria, e me molhava e eu fui, tropeçando nas pernas, mas fui chegando, não recordo direito, nos beijamos outra vez, bati de testa e corpo, sim, lembro do barulho da madeira velha da sacada rachando, dela caindo, linda, não acreditava, bêbada, ria, a tontinha ria, juro, foi só por isso que eu pulei também. E ficamos, meio segundo, um segundo, hora inteira, os dois suspensos, um pelo olho do outro, dançando no ar. Não, não lembro mais nada, sim, vi Alceu Valença subindo uma ladeira, sim, havia muita gente, se juntou mais gente ainda, uma bandinha mais abaixo tocava Olaolô, morena flor de cheiro / Sai dessa roda e quebra esse cordão / te dou um doce, um cacho de pitomba. Não, não lembro mais nada, sim, houve aqueles dias, no Hospital da Restauração... Não, nunca me disseram nada sobre o que aconteceu com ela. De uma coisa eu sei: ela voava, juro, ela voava.

Júlio Lira é sociólogo atuante na área dos direitos das crianças e dos adolescentes. Publicou “A História Inacabada de Maria Rapunzel” (Demócrito Rocha) e “Pequenas e Quase Inocentes Histórias de Horror”. Compôs, junto à Herbert Rolim, a publicação “Catálogo de Gestos Ermos”, do Núcleo de Literatura do Dragão do Mar.
Contato: juliolira@bol.com.br

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Cláudio Portella: Capítulo retirados do romance ainda inédito O Amor não deixa bilhete.

Júlio Lira
 
 
 

 


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