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0800
(Tele-Tortura)
Uma ficção baseada em fatos reais
Manoel era dependente do seu ventilador. Sem o seu ventilador ele não conseguia dormir. Por algum motivo, seu corpo absorvia mais calor que as pessoas normais e quanto mais deixava de estar exposto à brisa artificial ventiladoriana, sua pele pipocava de irritação, suava da cabeça aos pés com uma sensação térmica insuportável, um verdadeiro inferno. Eram duas da madrugada, o ar era rarefeito, as árvores não mexiam sequer uma única folha.
Uma lua banhava a noite com sua luz de neon prateada. Apenas o choro incessante de uma criança cortava a noite como uma navalha vindo de muito, muito longe.
Manoel acorda de seu sono profundo, quando sua pele sente a falta da brisa do seu inseparável ventilador. Suas hélices páram sem aviso prévio. Como um cocainômano que se debela pela falta do pó branco, inicia-se alí uma penitência sombria de Manoel com a falta da brisa do ventilador e o calor insuportável que fazia em seu quarto. As batidas do relógio na parede petrificavam cada segundo, paralizando o tempo. Até as nuvens brancas iluminadas pela lua prateada de neon que antes, era uma imagem poética, ganhavam um aspecto fantasmagórico.
Manoel se transforma num zumbí, um morto-vivo ambulante, andando sem rumo dentro do seu pequeno inferno particular. Uma noite que tinha tudo para ser tranquila, se transforma no maior pesadelo da vida desse pobre homem. E seus problemas estavam apenas começando. Manoel resolve ligar para o 0800 da empresa de energia elétrica. Após digitar dez longos números, uma voz feminina, gravada eletronicamente, dá início a um mórbido jogo interativo: -Bem-vindo à Faça-se Luz, sua empresa de energia elétrica! -Para atendimento, a falta de energia e fio partido, disque 1! -Para solicitação de serviços comerciais, disque 2! -Para falar com nossos atendentes, disque 3!
Manoel, com toda a pressão que seu dedo apontador consegue imprimir, aperta a tecla três. Um silêncio sepulcral se estabelece enquanto a gravação é repassada. Manoel já com os nervos à flor da pele, ainda é obrigado a ouvir outra gravação:
-Prezado cliente, para sua segurança, sua ligação poderá está sendo gravada! -Estamos transferindo sua ligação para o atendente!
-Alguém me diga pelo amor de Deus o que uma gravação poderia fazer contra o nosso aflito Manoel?!?!
Outro silêncio sepulcral. Naquele momento, Manoel já havia transpirado por todos os poros da sua epiderme e sua paciência fritava dentro da sua caixa cerebral, que recebe mais uma informação vinda daquele maldito 0800: não se trata de uma voz, mas de um jingle que fala da eficiência da empresa de energia. Enfim, o jingle é interrompido, dando lugar, finalmente, à voz da atendente. Mas para seu desespero, o que escuta é outra gravação: -No momento estamos com todos os atendentes ocupados, aguarde!
Naquele momento, a loucura começava a tomar conta do subconsciente do pobre Manoel. Um curto-cirquito provoca pane em seus neurônios, fazendo-o entrar em colapso nervoso. Manoel não acreditava que ainda não havia conseguido falar com uma voz de uma pessoa real que não fosse apenas mais uma gravação de uma voz feminina fria e insensível. Àquela altura, Manoel estava perdendo a razão. Para completar, a musiquinha do jingle que enaltecia as qualidades da empresa de energia, tocava insistentemente e mais uma vez a voz feminina fria e insensível repetia a informação: -Nossos atendentes ainda continuam ocupados, aguarde!
Mais alguns segundos daquele jingle no ouvido e finalmente a ligação é completada por uma atendente ao vivo:
-Serviço de Atendimento ao Consumidor Faça-se Luz, Maria dos Anjos, boa noite, em que posso serví-lo?
Manoel em estado de choque devolve a indagação à atendente: - quero saber porque está faltando energia aqui há mais de duas horas, e não é só a carne que está começando a apodrecer no congelador, eu não consigo dormir sem o meu ventilador!
- Sr. Manoel, em que cidade o senhor está? - O que isso tem a ver com a falta de energia?! - Qual é o nome do titular da conta? - Isso está cheirando à técnica de tortura? -Só estamos cumprindo as normas da empresa! - Então porque você não cumpre as normas mandando verificar logo o que houve e e me tira desse transtorno, afinal de contas eu pago a conta de energia em dia! - Sr. Manoel, em que bairro o senhor mora? - Pelo amor de Deus, o que isso tem a ver com a minha reclamação? - Eu apenas estou fazendo o meu trabalho!
- Não temos nenhuma infromação sobre alguma ocorrência que possa ter causado a falta de energia nesse bairro, mas já estamos enviando uma equipe de plantão para verificar o ocorrido! - O reestabelecimento da energia ocorrerá em no máximo duas horas! - Mais duas horas sem o meu ventilador? - Sr manoel, anote por favor o número da sua ocorrência! - Por acaso, você é um robô que só sabe repetir ordens? - Seu número é 42950498!
A essa altura, toda a energia do desesperado Manoel havia sido consumida naquele papo pra lá de torturante com a fria atendente. Quanto mais o tempo passava, mais o nosso personagem suava e se desesperava com a falta da suave brisa do seu ventilador. Duas horas depois, Manoel, quase desistindo, muito mais pelo cansaço do seu corpo do que pelo sono, volta a ligar para o 0800 decidido a comprar a briga, mesmo sabendo que teria que ouvir aquela voz feminina, fria e insensível várias vezes até falar com uma atendente de verdade: - Bem-vindo à faça-se Luz, sua empresa de energia elétrica! - Para atendimento, a falta de energia e fio partido, disque 1! - Para solicitação de serviços comerciais, disque 5! - Para falar com uma de nossas atendentes, disque 8!
Um silêncio, sepulcral, até a chegada da próxima gravação. - Prezado cliente, para sua segurança, sua ligação poderá está sendo gravada! Estamos transferindo sua ligação para o atendente!
Mais silêncio se faz na linha. Para Manoel é mais uma possibilidade de ver seu ventilador girando suas hélices para que possa, finalmente, dormir em paz: - Serviço de Atendimento ao Consumidor faça-se Luz, - Maria dos Anjos, bom dia, em que posso serví-lo?
Manoel aproveita para destilar sua ira, não mais com a mesma força de duas horas atrás, mas ainda com eloquência suficiente para impor um certo respeito do outro lado da linha.
Já se passaram duas horas da última vez que falei com uma atendente e até esse momento meu ventilador ainda não moveu uma hélice sequer, a carne do meu congelador já entrou em processo de putrefação e eu não dormí um segundo que fosse boa parte da noite, o que você tem a me dizer?
- Meu senhor, como se chama? - Ó não, vai começar tudo de novo! -Pela segunda vez, meu nome é Manoel! - O Sr é o titular da conta, Sr. Manoel! - O que isso tem a ver com a falta de atenção de vocês? - Só estou fazendo meu trabalho! - Essa frase é déja-vu! - Será que vocês não sabem fazer outra coisa senão repetir ordens e preencher protocolos, ao invés de resolverem o meu problema de energia elétrica? -Aguarde um minuto enquanto vou verificar no nosso departamento de ocorrências!
Nesse momento entra no ar aquela musiquinha insistente do jingle, lembram? Manoel perde mais uma vez a razão, seus neurônios voltam a entrar em estado de choque e sua cabeça na iminência de implodir. De repente, a atendente resolve dar sinal de vida: - Escute, Sr. Manoel, segundo nosso boletim de ocorrência, o motivo pela falta de energia foi uma colisão de um veículo com um poste de energia aí bem próximo! Agora, não importa mais o motivo da falta de energia, o que eu quero é a brisa do meu ventilador de volta para que eu possa de uma vez por todas, dormir em paz. - Dentro de aproximadamente duas horas sua energia voltará à normalidade! - Foi isso mesmo que outra atendente disse duas horas atrás e não aconteceu simplesmente nada, nenhuma leve brisa sequer! - Sr. Manoel anote o número da sua ocorrência, por favor! - Você é uma atendente real ou é apenas mais uma gravação?
Manoel desiste definitivamente dessa tortura interativa, desligando o telefone sem esperar o número da ocorrência. Enquanto se sentia um prisioneiro atrás da grade da sua própria janela, a noite se ia dando lugar a um amanhecer quente e amargurado. Apenas duas corujas brancas que fizeram-lhe companhia, com suas gigantescas e desengonçadas pernas, alçavam vôo fugindo dos primeiros raios de sol da manhã, sem fazerem idéia nenhuma da noite de horror porque passara nosso infeliz personagem. Finalmente, Manoel adormece como um anjo caído, sem se dar conta de que o seu ventilador começava a produzir uma suave brisa em direção ao seu suado corpo: - para lá e para cá - para lá e para cá (
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Manoel Carlos Nogueira Braz é poeta, contista e artista plástico cearense