2007

 

Jonathan Harker
Fendas e muros

Minha tarefa não é simples: Jonathan Harker e sua obra resistem a qualquer tentativa de classificação . Em poucos anos este jovem artista produziu mudanças híbridas que fazem bom uso de seus múltiplos talentos. Então, como defini-lo? Posso dizer que Harker é um vídeo-artista, um performático, um desenhista, um fotógrafo, um artista conceito, um instalador, um escritor... que através de seus diferentes personagens (no sentido junguiano da palavra) questiona os jogos de poder e as identidades culturais forjadas em nossa sociedade subdesenvolvida e ao mesmo tempo globalizada, ultraurbanizada, hiper capitalista... que tudo faz com uma forte dose de humor, desenvoltura e ousadia crítica, com uma paradóxica intensidade lúdica... e principalmente, com um olhar humano, humaníssimo, diria Nietzsche.

Como o desenvolve? Examinemos alguns exemplos concretos:

* Todos los gastos pagos (Todas as despesas pagas) (2002) foi concebido numa inspiração repentina. Harker foi convidado a I Bienal Ceará América, na agradável cidade costeira de Fortaleza (Brasil), e chegou com um projeto sob o braço que envolvia os artesãos regionais, porém que resultou muito complexo em ser realizado em tão curto tempo. De repente resolveu bronzear-se na praia, assim como tantos turistas (e participantes na bienal, “com todas as despesas pagas”), mas de forma ordenada, durante sete dias consecutivos, e ao final de cada jornada tirava uma fotografia. Resultado: sete imagens do tórax desnudo, que apresentam as mudanças em sua pele. O trabalho em grande formato, apresenta contraditória índole metódica e inquieta, pôs em perspectiva duas realidades quase opostas, porém próximas no espaço-tempo: a de uma minoria elitista (incluindo o mundo artístico) diante ao árduo ambiente socioeconômico da região.

* O artista também passa por contradições no vídeo Destablishing Shots II (Desestabilizando a tomada II) , cujo título é uma inversão do termo establishing shot (estabilizando a tomada) . Aqui une imagens em seqüência de casas e edifícios na cidade do Panamá (atentamos que as tomadas estão trocadas para mostrar uma quase simetria irracional e inquietante) com a música e letra de Panamá Viejo (Panamá Velho) , tradicional e coloquial música que louva a antiga capital arrasada pelos piratas ingleses no século 17. Letra e música aparecem em separado: primeiro a letra, com sotaque americano computadorizado, e depois a música de órgão que todo panamenho com mais de 30 anos já ouviu milhares de vezes. Panamá antiga e nova; ingleses, espanhóis e gringos; música e letra... deslocamentos que provocam uma angústia sutil alucinada e falam das contínuas intervenções estrangeiras que mutilaram e transformaram nossa paisagem urbana, desde o passado remoto até um presente caótico e em crescimento descomedido.

* Na mesma linha temática, Harker está trabalhando num vídeo que exigirá tempo e grande dedicação. Envolve a cumplicidade com os trabalhadores da construção de um dos muitos arranha-céus de luxo que vemos ser construídos dia-a-dia no Panamá num ritmo intenso. A estrutura consistirá numa peça única (mediante um elevador especial) que percorrerá lentamente, de baixo para cima, cada um dos andares (que logo serão vendidos a preços exorbitantes) do edifício em construção, oferecendo um retrato vivo de quem diariamente e durante meses trabalhou e dividiu um ambiente de uma monumentalidade e perigo extremos, por uma salário mínimo e sem segurança trabalhista; uma vez acabado o edifício não podem nem entrar. Com isto, o artista busca criar uma metáfora da rígida hierarquia classista panamenha e ao mesmo tempo um documento de notável valor estético e humano.

É imprescindível atentar que para a execução de suas obras Harker divide, sem parar, idéias e obras com artistas, amigos, desenhistas, estudantes, roqueiros, curadores, trabalhadores manuais... ou seja, quem esteja à sua frente. Além disso, diversifica-se ricamente de atividade em atividade, e não diferencia entre uma peça de arte “formal” e em afiar-se os dentes caninos (peça informal ou impactante), recriar diversos personagens fictícios, fazer cartões, cómics e capas para álbuns o revistas, e conceber ações, encontros ou espetáculos. De fato, muitas das obras que chegam a formalizar-se, começam para ele como uma aventura criativa. Assim, poderia afirmar-se que Harker vive dentro de sua arte, quer dizer, que está empenhado em fazer de sua vida um artwork in progress (trabalho em progresso, em desenvolvimento) , reinventando-se até o absurdo e explorando ao máximo as possibilidades do ser e do fazer.

E em que se traduz isso? Vejamos outros casos:

* Um bom exemplo de sua forma de trabalhar são seus cartões, que ele criou para comunicar-se com alguém querido que vivia fora do país. Um belo dia decidiu expô-los no Museu de Arte Contemporâneo, mudando assim sua imagem de cartão epistolar a objeto de arte, e os vendeu a dólar cada um, “transformando-se no artista que talvez mais peças vendeu nesse museu ”, brincou. Em seus cartões (que já somam dezenas) Harker derruba as frases clichê destinadas ao turismo e que eternizam uma imagem enlatada do Panamá, porém não para desmenti-las, mas sim mudá-las o sentido. Em todas as partes aparece o próprio Harker com o rosto indiferente e em poses, vestidos e ambientes que resultam burlescos por sua inconveniência com os lemas.

* Outro trabalho nada convencional foi Arte y curaduría (Arte e curadoria): algo como uma fotonovela , realizada junto com o curador Walo Araújo e a fotógrafa Dominique Ratton. Através de um gênero tão popular como a fotonovela, Harker y Araújo abordaram a difícil relação entre o artista e o curador contemporâneo, por meio de diálogos sustentados com uma vintena (grupo de vinte) de pessoas de diferentes profissões. O tom ultrajocoso da obra não esconde a vontade de encontrar respostas e de “estabelecer, desde a arte, um verdadeiro diálogo com o público”.

* Outro memorável exemplo de colaboração estreita foi Estación seca (Estação seca) , vídeo realizado com a artista Donna Conlon, cuja obra gira em torno da cultura do resíduo e quem, como Harker, trabalha no íntimo contato com a rua e as constantes mutações da paisagem urbana. O vídeo foi filmado numa área externa bastante ampla de uma fábrica de vidro reciclável. Diante uma belíssima paisagem artificial de colinas de vidro, uma grande quantidade de garrafas vai sendo quebrada, sem mostrar as mãos de quem às joga. A obra parece sugerir as cores que a beleza e o dejeto vão adquirindo no mundo atual.

Impossível imaginar como teria sido Harker num tempo menos aberto à mistura e subversão de gêneros e meios. Por um lado se afundam nos costumes, linguagens, formas e idiossincrasia populares e, por outra, na cultura “erudita”: as usa, magnífica o inverte ao seu capricho, para produzir uma espécie de estética negativa, por assim dizê-lo, já que encerra sua ação à beleza convencional.

Como último exemplo escolho o que para mim representa o mais perturbador:

* Para Tomen distância , o artista colocou na boca uma mini câmara de vigilância e cantou o hino nacional até vomitar. O vídeo, cujo título se refere à distância que devem tomar os estudantes panamenhos para cantar o hino, satiriza o adoutrinamento patriota característico de nossos países. Mas o faz com uma gargalhada visceral. Outro vídeo serve como uma espécie de paralelo: baseando como alicerce o humilhante juramento à bandeira e a Deus (que também é obrigatório pronunciar na escola, com a mão no peito), AREDNAB A LA OTNEMARUJ é uma tomada em primeiríssimo plano da boca de Harker recitando o juramento ao contrário —consentindo às palavras indecifráveis uma áurea misteriosa, diabólica— e numa ação seguida o repete.

Não quero terminar esta breve tentativa de detalhar a obra de Harker sem antes citar o próprio artista: “O lugar onde vivemos, a história, e nossa própria identidade pessoal ou coletiva, são produtos de um acidentado processo de seleção e combinação regido principalmente por interesses parciais e ideologias repletas de contradições. A maneira em que concebemos nosso mundo, e como o criamos e mudamos fisicamente, se assemelha muito à maneira em que idealizamos e contamos contos, sejam com palavras ou imagens. Mitificamos, tentamos reconciliar o ignorar as incongruências, as imperfeições, as ambigüidades. Procuramos revigorar-nos com histórias que tenham um início, um meio e um fim, nas quais todas as coisas são claras, e todas as peças se encaixam. Porém a vida não é assim, e nem todas as histórias necessitam ser assim (…) Através do meu trabalho tento observar e distinguir os detalhes que revelam o caráter fabricado de uma realidade que na maioria das vezes percebemos como monolítica (compacta), sem fendas, sem costuras”.

São palavras que direcionam a uma clara função social em sua arte. Mesmo que essa qualidade já não esteja tão em moda como antes (ou sim?), me atrevo a concluir que constitui o impulso primordial de Jonathan Harker. Dito de outro modo, ele manipula as interseções entre imagem e linguagem, procurando desta forma modificar nossas percepções sensoriais e intelectuais para remexer nas fendas da cultura dominante e destituir seus muros.

Como ele fará no futuro? Pago para ver.

Adrienne Samos
Panamá, noviembre 2007

Adrienne Samos
Panamá, novembro de 2007

Todas as citações foram retiradas de www.jonathanharker.com .


 

A vida inteira que poderia ter sido e não foi

O poeta e a artista.

O imaginário e a realidade.

A intensidade de dois mundos que se encontram. A arte de Maíra Ortins tece um diálogo com a poesia de Manuel Bandeira na exposição A vida inteira que poderia ter sido e não foi. Acompanhar o rumo desse olhar significa que lentamente perceberemos rastros de vivências e de sonhos. A revelação sorrateira e incomensurável do sonhado e do não permitido, dos desejos não realizados, lembra que esse caminhar pede calma. Convida-nos a sentir as possibilidades de sentido captadas pelo outro, para que possamos permitir que se entrelacem com os nossos próprios sonhos e sentidos.

Os poemas de Bandeira compõem a tessitura dos fios, dos desenhos de Maíra. As linhas narram e costuram a intensidade dessas trocas. Evidenciam e firmam através do simbólico da cor e da força das marcas o que ficou gravado na memória: amores, dores, percursos, estradas e paisagens. Elementos que integram o fluxo intenso, dinâmico, portador de sentidos, multifacetado, sujeito à contaminações que é a própria vida, que pode ser infinitamente maior do que é, re-significada de acordo com a nossa capacidade de ampliar o olhar e construir, desta forma, mundos novos.

Ana Valeska Maia


 

Antonio Bandeira - Desconfigurações

Exposição de pinturas, desenhos e esboços de Antonio Bandeira, do acervo do MAC, que mostram indícios de processos de transição entre a figuração e a abstração.

Curadoria: José Guedes e Roberto Galvão.


 

Carlos Macedo

Costuras e Murais


 

Desenhos para rever Di Cavalcanti

O desenho foi atividade ininterrupta do artista plástico Di Cavalcanti. Em diferentes ocasiões, em cada lugar, sob variados momentos emocionais, sobre os mais diversas tipos de papel, dele brotavam anotações gráficas e germinavam idéias plásticas, no registro de momentos ou personagens do cenário da vida cotidiana, de pessoas ou de seu relacionamento pessoal e de sua admiração.

O conjunto de desenhos resulta num diário íntimo, no qual o cotidiano toma lugar na reflexão contínua de sua busca expressiva. Talvez de sua veia de caricaturista advenha o gosto pelo gesto de anotar a “impressão” de observador atento da realidade que o circunda, revelando flashes da vida em seu sentido mais amplo. Os desenhos desvelam o lado humanista do artista plástico.

No cenário do anos 20 à década de 40, Di Cavalcante observa com sensibilidade o perfil psicossocial de homens e mulheres de seu tempo, retrata e capta cenas populares, cenas de rua, de sua cidade (o Rio de Janeiro dos anos 20 aos 40), das camadas sociais mais baixas, as marcas de um modo de ser, sentir e agir desse tempo. Desvela, além do mais, seu jeito boêmio, um pouco do spleen que ainda adentra o começo do século 20, na vida que flui pelos cafés, bares, cabarés. O espírito da maior festa popular de sua terra (o Carnaval), sua sensualidade e bonomia constituem outros de seus interesses. Há vivências do Rio, de São Paulo e de Paris, centro europeu procurado pelos modernistas.

O desenho, por sua qualidade espontânea, resulta em importante obra que lega à cultura brasileira, num dos espaços mais densos de sua produção, onde é um fato de adesão à vida.

Este conjunto de trabalhos pertencentes ao acervo do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, que integra a exposição Di Cavalcante: Cronista de seu Tempo , revela-nos um rico território para melhor pensar a contribuição de Di Cavalcante à arte moderna brasileira.

Lisbeth Rebollo Gonçalves Diretora do MAC USP


 

Composta por duas séries e uma instalação a exposição Retratos de Família trata-se um trabalho em processo, que ao longo dos anos vem sendo sedimentado com mais memórias e histórias para contar. Tal mostra pretende divulgar o resultado de uma longa caminhada de estudos e impressões de um artista que propõe a partir do mundo imaginário e do subjetivo, uma resposta para as questões já tão estudadas sobre o que define nossa identidade.

Usando sobreposições de imagens fotográficas tiradas de entes queridos, parentes ou desconhecidos, aplicadas sobre pinturas, tecidos, objetos, cartas, poema o artista Siegbert Franklin traça a essência de nossa formação, a memória coletiva que temos de família. História, cultura, etnias se confundem num só trabalho, pois ao expor tais fotografias, alcança no espectador o cerne de nossa individualidade através da consciência de que também somos um pouco do outro.

Possíveis mundos são expostos pelo artista, que com maestria consegue passar o indizível através do olhar de indivíduos fotografados e apresentados em suas transparências, que transmitem uma linguagem sem palavras, silenciosa quase, cristalizada em outro tempo.

Maíra Ortins
Curadora


 

Gesto  

Carlos Costa cresceu vendo cinema. Seu pai, Darcy Costa, foi o criador do Clube do Cinema de Fortaleza. Seu olho certamente foi treinado aí. Em sua vasta produção de desenhista o cinema sempre foi recorrente em citações imagéticas ou escritas (Lembro-me de uma exposição sua na Galeria Duailibi, em Fortaleza, onde a maioria das obras nos remetia ao filme Ran, de Akira Kurosawa). A mostra Gesto, ora apresentada na Sala Experimental do MAC – Dragão do Mar é fruto desse olhar construído pelo enquadramento; pela mise-en-scène dos grandes mestres da tela em movimento.No seu desenho, ecoam também artistas plásticos, como Klee, Miró, Bissier, mas o raciocínio cromático dominante já anunciava uma ruptura. E a pintura se deu por experimentos em nova técnica: a fotografia digital de baixa resolução de um aparelho de telefone celular.A realidade capturada por essa ferramenta gera imagens muito bem enquadradas que trazem questões claramente pictoriais. O artista converte, pelo movimento no ato de fotografar, objetos concretos em abstrações que nem deixam rastros de suas formas originais. É a pintura se expandindo por novos tentáculos.

José Guedes
Curador MAC


 

Dando continuidade a uma política iniciada desde sua fundação, de formação de um acervo relevante para a compreensão da arte em seu constante estado de ebulição, o Museu de Arte Contemporânea do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura tem a satisfação de apresentar nesta exposição um conjunto de obras adquiridas através do Programa CAIXA de Adoção de Entidades Culturais.

Esta parceria com a CAIXA ECONÔMICA FEDERAL propiciou ao MAC a elaboração de um significativo panorama através do qual poderemos conhecer a efetiva contribuição dos artistas do Ceará para a história da arte no Ceará dos últimos 50 anos.

José Guedes
Curador

Parceiro


 

JACQUELINE MEDEIROS

Outro mundo é então, possível.

Já disseram que os olhos são as janelas da alma. Na obra da artista Jacqueline Medeiros as janelas são territórios apropriados pelo olhar. São fragmentos de mundo. Exercício de lugares possíveis. Portais de sentido onde o olhar se apropria e cria, tecendo uma poética. Territórios férteis, onde acontecem encontros: reúnem olhar, sujeito e mundo. Instigada pelo fluxo dinâmico, intenso e imprevisível das cidades, a artista tem o olhar aguçado para captar os entrelaçamentos de pensamentos e convivências. A arte, então... acontece!

Desta forma, a obra da artista instiga reflexões sobre aspectos da contemporaneidade, tece diálogos com os inúmeros tempos que vivenciamos. O tempo da dinâmica pública, o tempo da intimidade do universo privado e sua memória particular. Dona de um olhar que persegue novos sentidos para o existir, a artista propõe narrativas, trilhas, fugas para a máquina do cotidiano. Ao abrir a janela, instaura portais, enseja poéticas, abre espaços para que tenhamos um lugar. Refletindo e interpretando a vida o olhar se ilumina. Outro mundo é então, possível.

Ana Waleska Maia
Curadora


 

Painel Giratório - Weaver Lima

O carregador de lâminas


 

 

ARTISTA INVASOR

Minha Pequenina Fazendinha - Zanazanan

Curadoria: Ricardo Resende

Francisco Zanazanan explora, de maneira própria, a transparência, a opacidade, a fragilidade e a tensão de processos de formalização mínimos, rastros, quase invisíveis, voltados para a problematização de sua presença no espaço ou no lugar de uma cena artística em que o formalismo experimenta uma crise de repertório. Zanazanan vem produzindo hologramas sobrepostos a relevos brancos, introduz uma combinação inédita em seu trabalho: os objetos cinéticos do artista não produzem movimento, mas permitem sua percepção, a partir do deslocamento físico do espectador diante deles. A incidência da luz, na superfície das obras, altera-se quando caminhamos ao longo do holograma e do vidro gravado em ranhuras, permitindo sua refração na transparência. Outrora uma tarefa da pintura, a exploração da matéria luminosa e a representação virtual do movimento podem ser hoje investigadas por meio de métodos alternativos de captação da luz e suas variações.

Fernando Cocchiarale
Crítico de arte


 

 

SALA EXPERIMENTAL

Desenhos Inanimados - José De Quadros

Desenhar insetos, detalhes da flora e da fauna, sempre foi algo que eu quis fazer. A princípio, desenhos banais, sem grandes pretensões... somente pelo prazer de desenhar.

Há seis anos atrás, meu caro vizinho Jens W. foi tragicamente assassinado em Luzón, Filipinas; entre outras coisas, dele herdei uma pilha de jornais do período nazista da Alemanha (1933/1945), acuradamente arquivados e catalogados. Jens W. era uma sumidade em história, profundo conhecedor e um grande crítico dessa época terrível da história alemã.

Por muito tempo, esses jornais e os desenhos dominaram meus pensamentos, faziam-se presentes, para logo em seguida um fazer parte do outro. De certa forma, fui também influenciado pelo livro de Hannah Arendt: "Eichmann in Jerusalem. Bericht über die Banalität des Böses / Eichmann em Jerusalém. Relatos sobre a banalidade do mal" (1963). Para quem não conhece o conteúdo de tal livro; trata-se da minimização de um passado medonho e monstruoso, negando a responsabilidade individual dentro de um crime organizado, mandado por um "sistema", do qual Eichmann tomou parte e que, durante todo o seu processo, dizia-se inocente, que somente cumprira com seu dever. A verdadeira banalização do mal.

Em meados de 2005 eu decidi fazer esse trabalho que agora apresento, uma decisão que não foi tomada leviana e precipitadamente, já que refleti muito a respeito; pois uma vez trabalhando com esses jornais, eu estaria mudando a trajetória desses documentos históricos. Esses jornais são registros de fatos, mas agora eles passam para uma outra dimensão: são incorporados como objetos de arte. Talvez no atual contexto, aqueles acontecimentos passam a serem observados de forma profunda e crítica, já que estamos plenamente cientes do desfecho daquelas circunstâncias.

Com os desenhos feitos sobre os jornais porta-voz do partido nazista, não quero banalizar, muito menos relativizar a história, mas sim enfatizar o perigo que, de uma forma ou outra, está sempre nos rondando. Temos que estar atentos...

Ao voltar do Brasil em abril de 2006, onde passei seis meses trabalhando no ateliê de São Paulo, estava pronto para iniciar esses trabalhos, quando, surpreendentemente, fiquei sem meu espaço de trabalho aqui em Kassel. No dia 22 de maio de 2006, o meu ateliê foi roubado, destruído por atos de vandalismo e consumido pelas chamas de um incêndio criminoso. Entre as muitas coisas que os bombeiros conseguiram salvar, estavam os ditos jornais! Eles escaparam do fogo por um triz, embora que, alguns exemplares que já estavam desenhados, se queimaram. Fiquei imaginando quantas bombas e quantos incêndios esses jornais já sobreviveram, e agora, mais uma vez... um sinal de que eu deveria dar continuidade ao trabalho imediatamente! Tudo parece anormal, mas são tais banalidades que mudam todo o percurso de nossas vidas.

José De Quadros, Kassel, Alemanha, julho de 2006.


 

 

Invasão de Privacidade

O Desenho Erótico na obra de Antônio Bandeira

Curadoria: José Guedes e Roberto Galvão

Bandeira descobriu a mancha, e sintonizou-se com a pintura mundial. Em Paris, com Wols e Bryant, criou o grupo Banbyols, momento inaugural na abstração lírica européia. O pintor figurativo Antônio Bandeira tinha momentos de brilho esporádicos. Mas o tachismo (pintura feita de manchas) consagrador jamais viria sem o longo caminho percorrido na figuração (que muitas vezes se insinua em sua abstração); e sem a Paris inconformista de meados do século XX. Criador compulsivo que era, alternava momentos de densa elaboração, tanto na pintura quanto no desenho, com outros de ligeiro registro; milhares de rápidos rabiscos despretensiosos. Em muitos casos, o refinamento de seu traço transcendeu a essa despretensão embora não resgatasse os trabalhos da condição arquivo íntimo. Essa mostra, portanto, invade sua privacidade. Não pelo tema em si, pois o erotismo é algo recorrente em seu universo, mas por expor o que muito provavelmente não foi feito para ser mostrado.

José Guedes
Curador MAC


 

Homem.com.se - Júlio Quaresma

Julio Quaresma, artista multimídia, que expande em muito as questões pictoriais (que parecem ser a base de sua produção, provenientes que são de um repertório iluminado pelo renascentismo; a era do corpo na história da arte, e problematizado no lusco fusco da pós-modernidade; nos conflitos entre sexo e religião), certamente suscitará no publico cearense enriquecedora discussão sobre os percursos da arte atual. Achile Bonito Oliva, célebre crítico e curador italiano no texto Il corpo glorioso di Quaresma ", contextualizou sua obra afirmando que “O corpo moderno ambiciona um nível de espectacularidade capaz de concentrar a atenção e de subtrair-se ao anonimato”. Síntese de instigante poesia.

José Guedes
Curador MAC

Julio Quaresma (Angola, 1958) é um artista mutifacetado, formado em arquitetura, atividade que desenvolve juntamente com as pinturas, complementa sua formação artística com estudos em arte plásticas e cenografia; disciplinas que irremediavelmente influem em sua obra. Começa a expor suas obras pictóricas em seu país natal, aos quinze anos. Em 1991 forma o grupo Visionista com o qual lança um manifesto O Visionismo . O grupo realiza a primeira exposição Visionista de Artes Plásticas no Convento do Beato, em Lisboa e em várias galerias de Nova York.

A obra de Quaresma é de um artista comprometido com seu tempo, com os desafios que geram grandes conflitos fazendo, com sua pintura, recortes de graves acontecimentos políticos e sociais atuais. Quiçá, por que uma de suas máximas é “somente o homem transforma a sociedade”. Recorre a representação do corpo humano constatemente; Quaresma recupera a figura humana até oferecer-lhe um lugar quase sagrado em suas telas, deixa que a espiritualidade se reflita em ocasiões, a partir de imagens bíblicas com a cruz, a maçã, Adão e Eva. O corpo do homem, raras vezes pinta mulheres, assume uma força expresiva não usual ao perder uma de suas partes fundamentais: a cabeça, as desenha em carvão, esconde, decompõe etc. A presença do corpo, em suas telas e fotografias, e a transfiguação da cabeça, mantém o homem como portador de sensações, mas sem abandonar a racionalidade cuja representação sempre é ostentada através da cabeça.

Esse desencontro entre cabeça e corpo, entre sensação e racionalidade, é explorado em seus trabalhos levando-os até o limite natural da obra que é a moldura. Os sentimentos são mostrados a partir das mãos, as dobras dos músculos e os claro-escuros das figuras contrastados com fundos negros e vermelhos.

A exposição Homem.Com.Se apresenta o espaço em torno do homem como um espaço multicultural, um recipiente de comunicações e interrelações, que podem converter-se em uma barreira, em um espaço de conflito e incompreensão, pela difícil relação entre religião e poder.

Institut Valencia D'Art Modern


Entre, a obra está aberta - Amelia Toledo

“Entre, a obra está aberta” é um trabalho em processo que, em recortes simultâneos no espaço e no tempo, apresenta a obra de Amelia Toledo através do que a curadora Ana Maria Belluzzo propõe como leitura “caleidoscópica”. Uma exposição que irá convocar o expectador a brincar, manusear e a muitos outros desafios: a observação da natureza, das formas, texturas, cores etc, tornando acessível a um grande público o entendimento visual, e por conseqüência intelectual, dos caminhos de uma arte não figurativa.

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Apoio


Leonilson 50 anos

O Museu de Arte Contemporânea do Centro Dragão do Mar tem a satisfação de celebrar com uma sala especial os 50 anos do artista José Leonilson Bezerra Dias (Fortaleza, 1957 - São Paulo, 1993) através da exposição das obras pertencentes ao Acervo MAC, gentilmente doadas pela família do artista e uma adquirida através do Programa CAIXA de Adoção de Entidades Culturais.

O núcleo "Leonilson" no MAC é composto por 16 obras que percorrem a produção do artista na década de 80, representado por um repertório de técnicas como: aquarelas, litografia, bordado, lápis de cor sobre papel, guache sobre papel, xilogravura, acrílica sobre lona, instalação etc.

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Leda Catunda

A "Geração 80" revitalizou a pintura brasileira ao propor instigantes diálogos, produzir uma original figuração e retomar o prazer de pintar. Musa dessa geração, Leda Catunda oxigenou a pintura brasileira ao utilizar novos suportes, materiais e construir sua narrativa alicerçada na percepção da natureza da imagem. O Museu de Arte Contemporânea apresenta um recorte importante da sua produção e mostra colagens, aquarelas, pinturas e gravuras.


Sérvulo Esmeraldo

O Museu de Arte Contemporânea tem a grata satisfação de apresentar para o seu público a primeira exposição do ano com as aquisições feitas a partir do apoio da Caixa Econômica Federal por intermédio do edital do Programa CAIXA de Adoção de Entidades Culturais 2006. Um fato inédito no estado que nos ajuda a reescrever e inscrever na história da arte cearense um panorama do que se produziu e do que se produz na atualidade para as futuras gerações

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Doações Recentes 2006 I

Nesta edição, o museu traz um segmento com fotografias, dois vídeos e uma sala com pinturas mostrando a diversidade que está se compondo neste acervo que cresce vertiginosamente. Fruto da generosidade dos artistas, familiares e empenho da equipe de profissionais da instituição o museu traz obras de Gentil Barreira (CE), Michael Wesely (Berlim, Alemanha), Vera Barros (SP), Elder Rocha (DF), Mariannita Luzzatti (Londres, Inglaterra / SP) e Járed Domício (CE).


Doações Recentes 2006 II
Carlinhos Morais

O MAC na sua busca de valorizar a produção local contemporânea e formação de um acervo que a represente, apresenta a doação de obras feita pela família do artista já falecido, Carlinhos Morais dentro do programa Gabinete de Curiosidades. Nascido em Fortaleza, em 1951, o artista iniciou sua carreira em 1968 e ficou conhecido principalmente por suas tapeçarias que inicialmente atendiam “tematicamente às imagens regionais e imediatas da infância e da vida comunitária” (Walmir Ayala, março de 1980). Da inspiração primitiva vista em suas primeiras tapeçarias para as de forte abstração geométrica em que predominavam volumes cilíndricos e tridimensionais.


Doações Recentes 2006 III
Karim Aïnouz

O cineasta cearense diretor dos filmes “Madame Satã” e “O Céu de Suely”, acaba de doar dois curtas-metragens para o acervo do Museu de Arte Contemporânea: “Seams”, de 1993 e “Paixão Nacional”, de 1994. Este último adquiriu um status especial que não se enquadra apenas como cinema, mas adentraria o campo das artes visuais ao ter sido apresentado no Panorama da Arte Brasileira do Museu de Arte Moderna de São Paulo de 1995. Mas, muito antes daquele ano, já se discutia que as artes plásticas estavam cada vez mais cinematográficas. Ou seja, as artes visuais cada vez mais usam os recursos do cinema como linguagem recorrente.


Knut Schirner

As grandes pinturas apresentadas nesta mostra, entremeadas de pequenas paisagens bucólicas de “aparente inocência” do artista alemão Knut Schirner, semeiam o horror. Um horror de raízes evidentes na escola expressionista alemã do início do século passado de cores fortes e gestos violentos desprendidos sobre a tela e que retratavam os dramas da época.


ARTISTA INVASOR
Marina Barreira

Marina Barreira, jovem artista da nova safra cearense, vem se destacando pelos delicados desenhos, gravuras ou intervenções que executa direto nas paredes de exposições em que tem participado.

O Museu de Arte Contemporânea, dando continuidade em seu programa “Artista Invasor”, a convidou para ser a primeira em 2007, dando-lhe a oportunidade de apresentar uma outra face experimental de seu trabalho, suas performances. Durante os meses de janeiro e fevereiro, as suas abordagens sempre delicadas do universo cotidiano que guardam as dimensões do feminino, serão apresentadas em uma sala do museu em meio aos visitantes e as obras ali expostas.