MAC - Museu de Arte Contemporânea

Walmor Corrêa e a autópsia do mito

08/10/2012

Por quase uma década, o corpo da produção de Walmor Corrêa vem percorrendo um caminho inesperado e consistente, sempre pautado em questões de origem, porém desenvolvendo gradativamente o repertório formal e visual de suas criações. O termo “criações” aqui adquire um sentido literal, pois em um primeiro olhar, os trabalhos do artista pouco ou nada parecem trazer algo de extraordinário. Pelo contrário: típicas pinturas naturalistas destinadas à fauna e de início, o único fato a estranhar é esses trabalhos aparentemente de cunho didático (parecendo terem sido feitos para velhas aulas de biologia) estarem numa exposição de arte contemporânea.

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Foto: Divulgação

No entanto, quando deixamos o olhar percorrer os todos os limites dessas imagens meticulosamente pintadas, vamos compreendendo aos poucos que não se tratam exatamente de representações naturalistas de animais que povoam o cotidiano das matas do país. Na seqüência, percebemos também que, de fato, a verdade supostamente inerente à estética naturalista não passa de um mito passível de ser questionado.

Encenando uma poderosa e instigante fusão entre preceitos da História Natural, com seu léxico e vocabulário gráfico característicos, o artista aposta numa instância de estranhamento que embaralha a percepção do espectador a partir de doses de ficcionalização. Para tal, Corrêa se vale de técnicas que combinam pintura e desenho, e mais recentemente objetos e peças escultóricas, no bojo de uma tradição que alude a um só tempo a antigos moldes acadêmicos e ao cânone cientificista naturalista. Em seu processo são decisivos fatores como a observação minuciosa e extensiva pesquisa em diferentes fontes científicas, a partir das quais extrai material para suas criações.

Walmor pinta seres totalmente improváveis, quase mitológicos, embora possuam uma familiaridade tornada horripilante. Híbridos de mamíferos e insetos, pássaros e peixes, mamíferos e aves, mamíferos e peixes. Seres inventados pela dedicada criatividade de um artista, mas que falam de um mundo fantástico, representando a taxidermia de uma fauna fantástica que perturba nossa percepção, sobretudo pelo fato de que, na atualidade, eles não se apresentam apenas meras alucinações artísticas, mas possibilidades científicas.

 

Sobre o artista

Walmor Corrêa nasceu em Florianópolis, Brasil, em 1962. Vive e trabalha em Porto Alegre. Graduou-se pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) em Publicidade e Propaganda e em Arquitetura e Urbanismo. Seu trabalho visual vem recebendo cada vez mais atenção crítica, desde o início da década, quando começou a trabalhar em sua obra.

Em 2004, seu trabalho recebeu uma sala especial na 26ª Bienal Internacional de São Paulo, participando nos anos seguintes do Panorama da Arte Brasileira, no MAM-SP. Além de São Paulo, sua  obra percorreu o Rio de Janeiro, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Pará, Distrito Federal e de importantes exposições coletivas internacionais, expondo em países como Espanha, Estados Unidos, África do Sul, Alemanha, Argentina, Chile, Aústria, Equador, Uruguai e Bélgica, além de apresentar a palestras em várias universidades brasileiras e na University of Edinburgh, na Inglaterra.

Dentre suas exposições individuais destacam-se:Memento Mori, Laura Marsiaj Arte Contemporânea, Rio de Janeiro (2008);Memento Mori, Instituto Goethe de Porto Alegre, Porto Alegre (2007);Apêndice/Mostruário Entomológico, Centro Universitário Mariantônia - Universidade São Paulo, São Paulo (2004); Natureza Perversa, Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli - Salas Negras, Porto Alegre (2003). Principais exposições coletivasDie Tropen, Museum Martin Gropius-Bau, Berlim (2008); Os Trópicos - Visões a partir do centro do globo, Centro Cultural Banco do Brasil - CCBB, Rio de Janeiro (2008); Cryptozoology, Bates College Museum of Art, Lewiston, Maine (2006); Panorama da Arte Brasileira 2005, Museu de Arte Moderna - MAM, São Paulo (2005); XXVI Bienal Internacional de São Paulo, Fundação Bienal de São Paulo, São Paulo (2004). Em 2008, participou de residência artística na Fundación Can Xalant e, em 2007, na Fundação Sacatar, Bahia. Pelo seu trabalho, Walmor Corrêa recebeu os seguintes prêmios: Açorianos de Artes Plásticas (2008); Destaque em Escultura e Artista Destaque Especial do Ano 2007, pela exposição Memento Mori no Instituto Goethe, Porto Alegre.

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